Homem de Bem


Alongando a mente

Alongando a mente
 
Nossas mentes nos fazem maiores ou menores -- e influenciam todos ao redor
 
Talvez tenha sido apenas coincidencia. Talvez nao. Parecia um daqueles filmes em que a tela se divide em duas e ve-se o desenrolar simultaneo das vidas de dois personagens. Dois amigos meus passaram por situacoes muito parecidas, que poderiam ter o mesmo desfecho. Nao tiveram. Aprendi uma grande licao com isso. Em ambos os casos, foram informados sobre o risco de morte -- e da possibilidade de eliminar ou reduzir esse risco com algumas mudancas de habitos. Um deles, diante da ameaca de perder a propria vida, passou a enxergar o mundo com muito mais desprendimento e generosidadade. Para o outro, essa ameaca soh reforcou o seu comportamento amargo e apegado. Os dois nunca foram parecidos em seus gestos e visoes. Vivem em mundos distintos e nem se conhecem. Mas, para mim que conheco os dois, nunca pareceram tao distantes e diferentes um do outro quanto no momento em que tiveram de enfrentar esse desafio. Curiosamente, parecia que seus proprios corpos expressavam as reacoes diante dessa adversidade. No limite do exagero, eu os via como o gordo e o magro, o grande e o pequeno, o alto e o baixo. Isso mesmo. O desapegado parecia-me cada vez mais alto, alongando-se, querendo, diante do risco de morte, entender melhor a propria vida. O outro, parecia encolher-se ainda mais, apegando-se ao que acreditava ter conquistado. Para voce, essa conversa pode parecer diastante e sem sentido. Mas creio que isso tem a ver com a vida de todos nos. E voce acabara entendendo o que eu quero dizer.
Ambos tiveram boa recuperacao e voltaram ao ambiente de trabalho, onde lideravam grandes equipes. O alto parecia cada vez mais alto, pois desprendera-se de muitos dos pequenos atos do cotidiano que nos fazem pequenos tambem. Tornou-se cada vez mais um lider que alonga-se, criando espaco para que todos ao seu redor facam o mesmo. O baixo pareceu-me cada vez mais apegado ao que tinha medo de perder (nao soh sua vida, mas tambem seu status, seu poder sobre os demais) e, em vez de lider, foi se tornando cada vez mais um chefe amargo que nao olhava nem para a frente e nem parta o alto, ocupando-se de fazer ele mesmo parte do trabalho de seus subordinados. E este eh o ponto principal. Sob a lideranca do grande, todos sao maiores, mais felizes. O grande enxerga longe, alonga-se e dah espaco para que seus imediatos facam um pouco do que, antes, seria o seu proprio trabalho, criando um ciclo virtuoso que estimula a criatividade, a confianca e a felicidade. O pequeno estende seus bracos para baixo, apegando-se ao que o seu imediato deveria fazer, minando sua iniciativa, desseminando a inseguranca e a infelicidade. Para mim, nunca ficou tao claro como o alongar-se e o encolher-se (em todos os sentidos, mas, principalmente no sentido de alongar ou encolher a propria mente) pode influenciar tranto a felicidade de quem estah ao nosso redor. Passei a ver como isso eh uma verdade universal, nos relacionamentos entre amigos, entre casais, nas familias. Como um comportamento apequenado de uma mae ou de um pai pode produzir o mesmo em seus filhos. Na maior parte do tempo, nao percebemos que isso acontece. Deveriamos prestar mais atencao e alongar a propria mente.
 
Caco de Paula prometeu a si mesmo que todos os dias alimentarah pelo menos um pensamento para alongar a propria mente
 
(texto originalmente publicado na revista VIDA SIMPLES)


Escrito por Caco de Paula às 21h56
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O caminho que a água faz

O caminho que a água faz

 

Uma lembrança me diz que o medo nunca fez parte de nossa natureza

 

por Caco de Paula

 

 

Seis da manhã. Silêncio na casa. Todos os adultos dormiam. A maioria das crianças também. Até o cachorro dormia. Pelo que me lembro, apenas meu primo e eu estávamos acordados. Saímos rapidinho pela porta da cozinha. Tínhamos cinco ou seis anos de idade. Era o começo do verão e seríamos os primeiros a chegar à piscina. Chegamos correndo ao clube e o encontramos deserto. A piscina ainda não estava limpa. Havia muitas folhas boiando sobre uma espessa camada verde-escura. Não se viam os azulejos. Sem pensar, pulei em pé no lado fundo da piscina e afundei olhando para a luz que entrou comigo, passando pelo mesmo caminho que fiz, rompendo a crosta de folhas. Um túnel de luz. Diante dessa visão, fiquei imóvel e tranqüilo. E, só por causa disso, não me afoguei. Continuei olhando para a luz quando meu corpo parou de descer na água e, ainda sem tocar o fundo, começou lentamente a voltar na direção do mesmo lugar onde eu entrara. Quando minha cabeça emergiu, havia uma providencial escadinha ao alcance das mãos.

Depois de ver aquele túnel de luz, eu achava que sabia nadar. Era tudo uma questão de ficar tranqüilo e flutuar. Nós flutuamos naturalmente e, se não nos debatermos, a própria corrente nos levará à outra margem. Talvez devêssemos praticar algo assim em todos os momentos de nossas vidas. Tudo isso me veio à memória alguns dias atrás, quando deixei São Paulo sob chuva e segui até o interior de São Paulo para passar uns dias com Susan Andrews, amiga que montou uma ecovila em Porangaba. Não pude deixar de fazer uma relação entre aquele meu primeiro mergulho e o que vi na ecovila. Lá, a água da chuva cai em um pequeno lago, de onde uma bomba movida por um cata-vento suga pequenos goles e os despeja em um tanque com plantas aquáticas. O tratamento natural purifica a água, que é bombeada para as casas e, depois de usada e novamente tratada, irriga a pequena mata que sombreia e fertiliza um terreno antes árido e triste.

Esse movimento me pareceu claro como uma frase bem escrita. A mesma água que pode ser modificada também modifica. Mergulho no lago, ainda turvo pela ação da chuva e, mais uma vez, vejo o túnel de luz. Tão claro quanto essa luz e tão natural quanto o ciclo da água parece ser a natureza da nossa própria mente, que originalmente não contém medo ou raiva -  sentimentos que produzimos, com os quais convivemos, que podem estar conosco ou não, pois não fazem parte de nós. Ignorando o medo, relaxado, flutuo. Acho que se acreditasse no medo como parte de mim mesmo, teria me afogado naquela manhã, tantos anos atrás. Conto essa minha lembrança para Susan, que construiu os lagos e cata-ventos. Ela sorri e, ainda que com outras palavras, me diz que o medo não faz mesmo parte da nossa natureza. Há algo de sábio em flutuar e seguir o caminho que a água faz.

 

 

Caco de Paula, jornalista, acredita que um simples banho de rio pode nos ensinar muito sobre a vida. homemdebem@abril.com.br

 

(texto originalmente publicado na revista VIDA SIMPLES)



Escrito por Caco de Paula às 21h53
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Quer ter razão ou quer ser feliz?

Quer ter razão ou quer ser feliz?

 

Espalhar alegria ou tristeza ao nosso redor pode ser uma simples questão de opção – desde que estejamos atentos

 

Oito da noite numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de alguns amigos. O endereço é novo, assim como o caminho, que ela conferiu no mapa antes de sair. Ele dirige o carro. Ela o orienta e pede para que vire na próxima rua à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem. Percebendo que, além de atrasados, poderão ficar mal humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita – e percebe que estava errado. Ainda com dificuldade, ele admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema em chegar alguns minutos mais tarde. Mas ele ainda quer saber: “Se você tinha tanta certeza de que eu estava tomando o caminho errado, deveria insistir um pouco mais”. E ela: “Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma briga, se eu insistisse, teríamos estragado a noite”.

Esta pequena história foi contada mais ou menos com estes mesmos elementos por uma empresária chamada Luza Helena Rodrigues durante uma palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho. Achei genial. Ela usou a cena para ilustrar quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independentemente de tê-la ou não. Quantas vezes, durante uma reunião, empacamos a conversa apenas para carimbar o argumento com o selo de nosso próprio ego. Quantas vezes fugimos do assunto em discussão apenas para  satisfazer a nós mesmos, com um  discurso na linha do “Eu estava certo” ou “Eu não disse?”. Nunca havia ficado tão claro para mim que há uma fórmula  para evitar cair nessa armadilha. Basta nos perguntarmos: “Quer ter razão ou quer ser feliz”. Não se trata aqui de abolir a razão e buscar a felicidade através da aprovação do outro a qualquer custo. Uma atitude assim poderia levar a muitas injustiças. Trata-se, antes de tudo, de perceber quando faz ou não sentido impor sua razão, sua certeza a respeito dos fatos. Como no caso do casal que quase se perde a caminho da casa de amigos, em muitas situações faz mais sentido abrir mão da propriedade da razão por um bem maior, a paz, a felicidade. Mas o que vemos nas reuniões de trabalho, nas discussões com os filhos, na escola é que há muita gente dominada por essa necessidade de ter razão. Talvez tenhamos dificuldade em perceber quando acontece conosco. Por isso, precisamos prestar atenção aos sinais e observar quando podemos estar apenas caindo no círculo vicioso de ter razão por mera satisfação. Até mesmo porque, como diria o filósofo, nossa percepção de razão não é absoluta e pode ser influenciada por sensações um tanto distantes do puro raciocínio brilhante, como uma unha encravada ou uma simples dor de barriga. Desde que ouvi essa história, tenho me perguntado com mais e mais freqüência: Quer ser feliz ou quer ter razão?

 

Caco de Paula acredita que é possível ser feliz e ter razão ao mesmo tempo. O problema está em impor isso aos outros.

 

(Publicado originalmente em VIDA SIMPLES, maio de 2004)



Escrito por Caco de Paula às 21h48
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  18/07/2004 a 24/07/2004


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